13 de maio comemora-se o Dia de Nossa Senhora de Fátima. E foi no anos de 2009, nesta data, que minha vida tomou um novo rumo. Foi no dia 13 de maio de 2009, há exatos 468 dias, que eu cheguei a Belo Horizonte. Era uma quarta-feira fria, e foi ainda de madrugada que desci na rodoviária da capital mineira. A princípio assustei. Muitos ônibus, muita gente, e o pior, a tal gripe suína estava em seu auge. De onde vinha não tinha nada disso. Em Pouso Alegre tem pouco ônibus, pouca gente e principalmente, nenhum caso de gripe suína.
Medos à parte, tomei um taxi rumo ao Othon Palace Hotal. Avenida Afonso Pena, centro de BH – foi assim que passei a chamar a cidade. Lá estava a pessoa mais importante da minha vida, a linda Cristiane, minha esposa, com quem tinha acabo de me casar. É... nós tínhamos trocados as alianças três dias antes e estávamos há dois longe um do outro. Quando nos vimos, ainda na recepção do hotel, foi uma alegria tremenda. Parecia que não nos víamos há anos. A saudade era muito grande.
Após um delicioso café nas custas do Banco do Brasil, empresa onde minha esposa começava a trabalhar, fui para a nossa casa. É... iríamos morar em BH. Alugamos um apa(e)rtamento no bairro Silveira, que ficava próximo ao centro, cerca de 15 minutos de carro. Um local tranquilo, seguro, com supermercado, padaria, farmácia, açougue, banca de revista, quitanda, ou como chamam na capital, sacolão, enfim, tudo por perto. Era um lugar perfeito.
Quando cheguei a nossa casa, estava tudo sujo e sem nenhum móvel. A mudança chegaria a poucos minutos. Foram cerca de quatro horas para descarregarmos o caminhão. Tive que por a mão na massa também. Ajudei a descarregar quase tudo. Não tínhamos muitos móveis na verdade, a demora se deu por causa das escadas, pois morávamos no segundo andar do bloco 3. Ao todo, nosso condomínio tinha oito blocos, quase 150 apa(e)rtamentos, praticamente uma ‘Heliodora da vida’. Depois de colocar as coisas, mais ou menos, em seus devidos lugares, tinha ainda que encontrar alguma loja para vender um cano para eu poder instalar o chuveiro.
Andei por quase todo o bairro Silveira e Cidade Nova a procura de uma loja de material de construção. Com a camisa da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) entrei na Feira dos Produtores, uma espécie de Mercadão do bairro. Lá passei por várias lojas, até encontrar a ‘Casas e Coisas’. Fiquei fascinado com o estabelecimento. Lá era possível encontrar de tudo, inclusive o cano para instalar o chuveiro. Fui atendido por um cruzeirense chamado Thiago. Após comprar o que precisava, fiquei alguns minutos conversando com ele sobre a minha chegada em BH e claro, futebol.
E por falar nisso, a paixão pelo futebol em BH é diferente. Pouso Alegre, cidade onde nasci e cresci existem torcedores de diversos times, já na capital mineira, ou a pessoa é cruzeirense, ou é atleticana. Salvo algumas raras exceções. Devido a isso, a rivalidade é muito grande e os nervos ficam a flor da pele em dias de jogos das equipes. No início chegava até a me assustar com alguns vizinhos que saiam em suas janelas e gritavam até perderem a voz: Galooo, Zerooo... mas, depois de um tempo, acabei me acostumando.
Gritos eram comuns onde morava. À noite era o casal do apa(e)rtamento de cima, ou os vizinhos apaixonados por futebol e durante o dia, eram as crianças do Colégio Magnum. Engraçado, parecia que as crianças daquela escola ficavam dentro de casa, de tanto que os gritos delas ecoavam pelo nosso apa(e)rtamento. No entanto, depois de certo tempo me acostumei com a criançada. Ah, habituei com os vizinhos de cima também...

TrabalhoDizem que cidade grande é repleta de oportunidade, que tudo é mais fácil. Pode até ser, exceto com Belo Horizonte. Quando sai de Pouso Alegre deixei um emprego no Jornal do Estado, o periódico mais tradicional da cidade. É verdade que lá eu não tinha todas as condições para exercer a minha profissão, que o mês durava mais do que 30 dias, mas era um emprego que eu curtia, pois fazia aquilo que gostava e segundo alguns amigos, fazia bem feito.
Fui para BH com uma grande expectativa e cheio de esperança: ‘Ah, tenho experiência, trabalhei na área quatro anos’. Beleza. Fui... mas, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, a esperança foi diminuindo e a expectativa de conseguir um bom emprego também. Andava para cima e para baixo. Entregava currículos em todos os jornais, agências de comunicação, rádios, emissoras de televisão e nada.
Infelizmente pouca coisa de concreto surgiu. Dos mais de 100 currículos entregues, recebi resposta em menos de 10. Fiz algumas entrevistas, mas sempre faltava algo para conseguir a tão almejada chance. Às vezes era uma pós que faltava no currículo, outras vezes – a maioria – perdia a vaga para alguém de QI (Quem indica) mais alto do que eu e por ai foi, e por ai fui...
Em meados de setembro, confesso que a ideia de abandonar o jornalismo e partir para outra área veio forte. Visitei diversas agências de emprego, mas até para trabalhar com outras coisas era difícil, pois me faltava algo, dessa vez experiência. Até hoje trabalhei apenas com o jornalismo. Na verdade, só sei procurar pauta, entrevistar, escrever, tirar foto, diagramar e mais nada. Limito-me a isso, profissionalmente falando.
Mas, foi nesse período que apareceu uma boa oportunidade. Um site esportivo estava precisando de um repórter para cobrir a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro e a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro. Após alguns contatos, a vaga estava preenchida por mim. Foram quase quatro meses de trabalho. Nesse tempo conheci várias pessoas, fiz amizades com alguns companheiros de jornalismo e tive a oportunidade de fazer aquilo que eu mais gostava, que era escrever matérias esportivas.

PaixãoE foi trabalhando que descobri uma nova paixão. A Série C do Campeonato Brasileiro tinha a participação de um grande time de BH, o América Mineiro. O Coelho, como é carinhosamente chamado, disputou e venceu a Terceira Divisão Nacional em 2009 e eu tive a honra de cobrir e ver de perto esta conquista tão importante para a história do clube. Foram vários jogos no estádio Independência e devido a isso descobri a paixão pelo América. O Coelho é um time gostoso para se torcer. O clube voltava de um período negro de sua história, chegou perto da quarta divisão nacional, disputou módulo II do Mineiro e aos poucos começou a voltar a ser o que foi um dia, um grande time de Minas Gerais e do Brasil.
AmizadesAlém de despertar uma nova paixão futebolística, o América Mineiro me apresentou grandes pessoas, dentre elas, um que se tornou um grande amigo, Jair Félix da Silva, o popular Jair Bala. Ídolo da torcida americana, Jair se tornou um amigo de verdade, que nos ajudou muito. Cristiane e eu costumávamos visitar Jair praticamente todos os sábados. E por se tratar de uma pessoa simples e educada, Jair nos recebia com o maior carinho em sua casa. Em meio aos bolinhos de feijão, ficávamos horas e horas conversando, às vezes chegamos após o almoço e saíamos antes do jantar, ouvindo histórias daquele que foi o maior jogador da história do América Mineiro.
Filho de um ferroviário e uma benzedeira, Jair e eu tínhamos várias coisas em comum, a mais curiosa, o apelido. Seu Zózimo, pai de Jair, era conhecido em Cachoeiro do Itapemirim, no estado do Espírito Santo, terra natal de Bala, como Batata e por ser filho mais velho de uma família de oito irmãos, Jair ‘herdou’ a alcunha quando pequeno, e era chamado por todos de Batatinha. E por esse mesmo apelido fiquei conhecido nos anos de faculdade e até hoje esse codinome me segue.
Além de Jair, outro amigo que fizemos em BH, foi César. O homem cabeludo, estilo hippie ficava sempre próximo ao Minas Shopping vendendo seus DVDs. Sem muitas opções de lazer nos fins de semana, Cristiane e eu gostávamos de assistir filmes. Não sabíamos onde tinha locadora por perto, muito menos tínhamos dinheiro para comprarmos DVDs originais e foi por isso que certo dia paramos para ver os produtos de César. Com um jeito simples, César nos atendeu bem. Falou das novidades e a partir disso passamos a conversar sobre alguns clássicos do cinema.
E aquela compra despretensiosa passou a virar rotina. Todos os finais de semana tínhamos que adquirir alguns DVDs do César. Sempre com lançamentos e filmes clássicos em sua banca, ficávamos longos minutos conversando e aquele contato de vendedor e freguês, passou a ser de amizade. E assim acabou sendo pelos meses seguintes. Ao todo adquirimos e ganhamos quase 200 filmes nesses 16 meses em BH. Com excelente qualidade, praticamente todos já foram vistos e provavelmente alguns serão emprestados para os familiares de Pouso Alegre.


SaudadeNão sei se vou sentir saudade de BH. Moramos praticamente um ano e meio na capital mineira. Aqui tínhamos várias coisas para fazer, mas devido à falta de recursos não pudemos fazer tudo o que queríamos. Mas, de qualquer maneira, aproveitamos tudo àquilo que tivemos a oportunidade de fazer. Comemos muito feijão tropeiro e bebemos bastante chopp no Mercado Central, comemos torresmo com farofa no Spetim, Burger King e Mc’Donalds nos shoppings, Feira Hippie, cinema (muito cinema), Independência, Mineirão, teatro, shows musicais, passeios de ônibus e metrô, dengue, Jair Bala, César, Dona Edi, Valdir, Vanessa, viagens pela Gardênia, sorrisos, choros, alegria, tristeza... para mim, BH foi isso. Valeu a pena!
E segue o jogo... agora em Pouso Alegre!